Arqueologia do Amor, mais alguns fragmentos.

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Arqueologia do Amor, mais alguns fragmentos.

Seguindo com o nosso trabalho na Arqueologia do Amor - que é este delicioso labor de bisbilhotar os arquivos históricos e contemporâneos da humanidade em busca das expressões do Amor Autêntico - eu gostaria de compartilhar um fragmento especial retirado do lindo artigo "A busca pela manifestação genuína do eu" do meu amado amigo Rodrigo Cunha. O artigo trata da Filosofia da Liberdade de Rudolf Steiner e mais para o fim ele, obviamente, envereda pelos caminhos do amor. Seguem então as precisas e preciosas palavras esculpidas nesse belo artigo sobre essa sentimento e força universal.

Land Art por Andreas Amador

Land Art por Andreas Amador

Nunca é demais falar de amor. Aqui não vamos falar da visão romântica de amor, mas de uma visão ampla, conforme entendimento da Grécia Antiga, que o dividia em pelo menos seis variedades:
1. Eros — ligado ao prazer sexual e ao desejo
2. Philia — ligado à amizade ou mesmo ao amor entre pais e filhos
3. Ludus — ligado à afeição divertida entre crianças ou jovens amantes
4. Agape — amor abnegado, estendido à varias pessoas (foi traduzido para o latim como caritas)
5. Pragma — amor maduro entre casais de longo casamento
6. Philautia — auto-amor, dividida entre narcisismo (não saudável) e uma versão mais ligada a segurança. “Se você gosta de si mesmo e sente seguro em si mesmo, você terá amor suficiente para dar aos outros.“Todos os sentimentos amigáveis por outros são uma extensão dos sentimentos do homem por si mesmo.”
Nesta visão ampla, uma ação genuína — que tem a ver com a vontade individual, despertada por um pensar intuitivo a partir da observação pura — se transforma em um transbordamento de amor.
“Amar é um recipiente que quanto mais você esvazia, mais ele se enche.” (anônimo)
Numa relação, é importante observar o outro como uma extensão do eu. Sem o outro, não há um eu. Isso abre um portal de entendimento e diálogo poderoso, pois para compreender você, tenho que absorver os conceitos que  usa para se autodeterminar. Preciso me despir, tirar o filtro, o véu, o piche, até chegar nas ideias comuns. Uma individualidade só é possível se cada individualidade sabe da outra por meio da observação individual.
“A garantia única é que nasci.
Tu és uma forma de ser eu.
E eu uma forma de te ser.
Eis os limites da minha possibilidade.”
(Clarice Lispector)
No limite, o que Steiner propõe é que a liberdade só pode emergir quando o indivíduo se manifesta na sua plenitude.
Toda nossa tradição e passado nos traz amarras: nossa família, país, grupo étnico, religião, trabalho, amigos etc, causam impressões mentais que moldam nosso comportamento. Agir de acordo com este comportamento inconsciente é o oposto da liberdade.
Qual a sua manifestação individual? Qual sua ação genuína no mundo? Somente quando realizamos nosso potencial como indivíduos únicos é que seremos livres. É uma (bela) busca que leva uma vida. E só quando vamos em busca da liberdade é que podemos de fato chegar perto desta liberdade. Meio óbvio. Mas tão óbvio quanto seria a gente parar para pensar no nosso pensar.
No fundo, a busca pela individualidade dentro do todo, é a manifestação da essência do eu. Uma essência buscando a manifestação livre do espírito. Um voo em busca da manifestação genuína e pura num mundo repleto de pensamentos e vontades milenares. O espaço livre do “um” que se manifesta no exterior só emerge a partir do interior. Então, a liberdade é um pulsar infinito de dentro para fora e de fora para dentro.

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O que não é o Amor?

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O que não é o Amor?

O amor não é algo teórico — embora, em minha opinião, precisemos cada vez mais e mais de teorias e conteúdos que falem e expliquem esse sentimento tão pouco compreendido por nós. Principalmente se levarmos em consideração a sua importância em diferentes aspectos de nossas vidas. O amor merece mais estudo, mais discussão e mais ação. De todo modo, o amor realmente não é algo teórico. Ele é algo prático. Vivo e vivido. Na tela, na alma, na pele. 

Com a meditação é parecido. Muita teoria e muitas ideias sustentam os seus benefícios. Cada vez mais estudos científicos embasam a sua prática. Mas, como a própria palavra diz, a prática é o que importa. Alguns mestres de tradições meditativas antigas têm um dito que define isso muito bem.

Um grama de prática equivale a toneladas de teoria.
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Assim também é no amor. Mas, afinal, o que é o amor? É mistério. Parece sempre que sabemos algo sobre ele, afinal já vivemos algumas coisas nesta vida. Já amamos e fomos amados; alguns de nós, estão amando e estão sendo amados neste exato momento. Mas ainda assim sabemos muito pouco sobre ele. Quase nada. Talvez o mais fácil, por ora, seria tentarmos responder o que ele não é. O que não é o amor? Tentando responder a esta pergunta, traduzo livremente aqui as palavras Krishnamurti, um dos grandes pensadores e espiritualistas da Índia moderna. Livre de tradições, com um pensamento autêntico e uma visão clara sobre assuntos transcendentes, Krishnamurti tem algo relevante para compartilhar conosco acerca do amor, não-amor e meditação:

  

“No espaço que o pensamento cria ao redor de si mesmo, não existe amor. Este espaço divide o homem de si mesmo e ele se torna toda a batalha da vida, todo o vir-a-ser, toda a agonia e o medo desta vida. A meditação é o fim deste espaço, o fim da ideia de “eu” e “meu”. Sob essa luz, os nossos relacionamentos então tomam um outro sentido pois neste espaço, que não é feito pela mente e pelo pensamento, o outro não existe, o “meu” não existe.

A meditação, portanto, não é a busca por algum tipo de visão sacralizada pela tradição. Ao invés disso, ela é o espaço infinito cujo o qual os pensamentos não conseguem penetrar. Para a gente, o pequeno espaço criado pelos pensamentos ao redor deles mesmos — que é o próprio “eu” e “meu” —  é extremamente importante pois é tudo o que a mente se identifica e conhece e o medo de não-ser nasce deste lugar. Mas na meditação, quando isso é compreendido, a mente pode entrar numa dimensão onde a ação é a não-ação. Nós não sabemos, de fato, o que é o amor, pois neste espaço que os pensamentos criam ao redor de si mesmos, o amor é o conflito entre o “eu” e o “não-eu”, entre o “meu” e o “não-meu”. Este conflito, esta tortura, não é o amor.

O pensamento, em si, é a própria negação do amor. O pensamento não pode jamais adentrar um espaço onde o “eu” e o “meu” não existam. Este espaço é a bênção que o homem busca e não consegue encontrar. Ele busca isso dentro dos domínios do pensamento enquanto o próprio pensamento destrói o êxtase desta bênção.

Se você se prepara para meditar, você não estará meditando. Se você se prepara para ser bom, a bondade jamais florescerá. Se você conservar a humildade, ela deixa de existir. A meditação é a brisa que entra quando você deixa a janela aberta; mas se você deixar ela propositalmente aberta e ficar convidando o vento para entrar, ele jamais aparecerá.”

Jiddu Krishnamurti

Jiddu Krishnamurti


Texto também publicado no Medium do Autor

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