Mindfulness Response: uma técnica simples e poderosa para se viver bem em tempos de crise.

Eu medito há 15 anos. Nesse tempo descobri alguns atalhos no processo que, pelo menos para mim, fizeram toda a diferença até aqui. Vou explicar aqui um deles em específico que, acho, pode fazer a diferença na sua vida também. Eu comecei a meditar espontaneamente aos 17 anos de idade. Sem treino, mestre ou panfleto. Apenas conectei com a minha respiração e Bingo! — fui arrebatado por uma sensação que nunca havia sentido, que jamais esqueci e que, a partir daí, passei sempre a perseguir. A história de minha auto-iniciação vale a pena ser contada, mas vou deixar isso para outra hora. Agora vou me concentrar no centro da experiência meditativa, ou melhor, no efeito posterior à experiência meditativa — naquela leveza que fica depois de você ter tido alguns minutos de contato profundo com aquilo que, de fato, é chamado meditação.

Meditar é como deixar a janela aberta para que uma hora a brisa entre.

Muitos sentam para meditar, mas poucos meditam. Muitos destes poucos que conseguem meditar sabem que a experiência verdadeiramente meditativa é algo raro, não ocorre todos os dias. É como a brisa que entra pela janela. Não é sempre que ela entra, mas para que ela entre é preciso deixar a janela aberta. Meditar é como deixar a janela aberta — para que um dia a brisa entre. A brisa, nesta caso, é um estado de aceitação tão puro que você passa acessar e simplesmente aceitar as respostas óbvias aos seus questionamentos mais profundos — e passa a compreender grandes porções da vida em si. Na verdade, você se torna a própria compreensão. A brisa é a compreensão silenciosa que a meditação verdadeira entrega ao meditador.

Depois dessa revelação onde a sua própria natureza se apresenta diante dos seus olhos, você se mescla com este estado de leveza e pode senti-lo em atividade muito tempo depois de ter se parado sua meditação. A compreensão e a leveza são, podemos dizer assim, os efeitos colaterais da experiência meditativa autêntica. Meditar diariamente pode mudar o seu modo de ser simplesmente pelo fato de fazer com que esses estados de compreensão e leveza se tornem a base da sua vida. Você pode passar a se sentir realmente centrado — e é este centro que a meditação me ensinou a sempre perseguir.

Mindfulness e o mundo.

Somos humanos, é claro, e pouco entendemos de centro. Estamos mais para bêbados equilibristas do que para santos centrados. Mas precisamos tentar. Vale a pena! Ainda mais em tempos turbulentos como o que vivemos hoje, onde toda a mídia, toda a sociedade e todos os fatos parecem estar comprometidos a nos tirar do centro a nos fazer perder o eixo.

Para entender melhor como chegar neste tão sonhado centro é importante lembrar que existe algo que está totalmente conectado com a esta ideia de centro. Este algo é a atenção. A meditação é uma espécie de exercício definitivo para a nossa atenção. Tanto que muitos cientistas, meditadores e estudiosos tem chamado o estado meditativo de estado de Atenção Plena ou, em inglês, Mindfulness.

Grupo de Estudos de Meditação e Evolução da Consciência com Jon Kabat Zinn em Harvard, Boston

Grupo de Estudos de Meditação e Evolução da Consciência com Jon Kabat Zinn em Harvard, Boston

O termo mindfulness está em voga. O principal defensor do termo e talvez seu maior difusor de todos os tempos é Jon Kabat Zinn, um doutor em medicina de Harvard que tem provado cientificamente há mais de 30 anos os efeitos curativos da meditação — e isso não é pouca coisa. Ele é um dos papas do tema e da relação ciência-espiritualidade como novo estilo de vida. Por este e outros motivos, gosto também de usar o termo mindfulness — e a técnica que tenho a compartilhar a vocês, apesar de absolutamente simples, é chamada de Mindfulness Response. Traduzindo para o português ficamos com algo como: Resposta de Atenção Plena.

Resposta de Atenção Plena ou Meditação Responsiva

A Resposta de Atenção Plena é uma micro-meditação que pode nos ajudar nos momentos de pane — ou seja, naqueles momentos em que somos tomados por uma onda de ansiedade e nem sabemos da onde ela vem. Portanto, quando você sentir algo como um “choque negativo” no seu sistema ou aquela onda de “calor de ansiedade” siga imediatamente os seguintes passos:

1. quando perceber que está sendo invadido por uma onda de ansiedade ou pensamentos truncados tome consciência deste ‘desconforto cognitivo’;
2. pare na hora o que está fazendo e proponha-se a isolar-se por um minuto para entrar em contato com o poder do Silêncio;
3. procure um lugar com mais privacidade e ajeite-se na cadeira, no chão, em pé ou onde estiver e sentir-se mais confortável;
4. mantenha a espinha ereta, a atenção no seu corpo e feche os olhos;
5. coloque a atenção agora na sua respiração;
6. passe a respirar profundamente inalando e exalando o ar vagarosamente;
7. repita isso por 10 vezes com o máximo de atenção possível. Dez respirações profundas e vagarosas são, em média, o equivalente a um minuto;
8. alguns pensamentos podem ocorrer nesse minuto, mas não se preocupe com eles, continue atento à sua respiração e feche o ciclo de 10 respirações;
9. depois deste pequeno ciclo de Atenção Plena você já estará mais tranquilo e os efeitos deste contato com o Silêncio se desdobrarão nos próximos minutos;
10. repita a técnica sempre que sentir uma nova onda de ansiedade e desconforto.

Isso que acabou de ser descrito é uma micro-meditação ou uma Resposta de Atenção Plena. Uma resposta a quê? À uma onda de ansiedade que invadiu a sua cabeça e o seu corpo em determinado instante do dia.

Essa é a chave desta técnica. Sempre que você sentir o mal estar do “calor da ansiedade”, pare imediatamente o que você está fazendo (se isso for possível, claro!) e pratique este minuto de silêncio. Minuto, aliás, que grandes mestres meditadores e mesmo movimentos por uma vida mais equilibrada têm defendido com bastante empenho. Faça isso quantas vezes forem necessárias ao longo do seu dia. Se você for fiel à técnica, quanto mais ansioso você for mais vezes você meditará. Tente ser fiel a este método por 21 dias — que é o tempo que se sabe que é definitivo para a implementação de qualquer novo hábito em nossa vida. Meditar é como se alimentar — é importante para a sua sobrevivência e precisa ser feito todos os dias enquanto você estiver zanzando por este planeta.

Quanto mais ansioso você for mais vezes você meditará.

Eis um paradoxo que tenho observado em minha prática: medito mais em tempos conturbados do que em tempos de paz e tranquilidade. Até porque acho que a mente tende a estar em uma espécie de estado meditativo natural em tempos de tranquilidade. Mas isso aqui é uma daquelas coisas que explica que em tempos de Crise também existe oportunidade. Use a crise ao seu favor, aprenda a meditar.

O Mindfulness Response ou Resposta de Atenção Plena é, dentro de minha experiência pessoal, uma das técnicas mais eficazes para combater os distúrbios do nosso dia-a-dia e nossa ansiedade crescente. Podemos chamá-la também de Meditação Emergencial ou Meditação Responsiva. Dando a ideia de que ela é uma ação em resposta aos nossos picos de ansiedade cotidiana -que aumentam em épocas de incerteza.

Como diz o velho dito, tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo — e para isso, nunca esqueçam do elemento base que faz essa equação poder existir: a respiração! A respiração está no coração de quase todas as técnicas meditativas. Em poucas palavras, ela é o segredo dos grandes meditadores — das tradições antigas aos métodos científicos contemporâneos. Lembre-se a respiração é a chave do Yoga. Use a sua ansiedade e mal-estar como um gatilho para reconectar à leveza e ao bem estar — sempre através da respiração e do Silêncio Criativo.


Post também publicado em medium.com/@joaocavalcanti

Comment