O aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento faz o seu trabalho. 
— Rubem Alves

Vou começar com uma pergunta: existe ainda alguma dúvida de que estamos passando por uma transformação total em nosso planeta?

Para aqueles céticos ou simplesmente desconectados, compartilho este video que mostra a expansão e dispersão da humanidade sobre essa nossa Terra de meodeos nos últimos 2 mil anos. Vale dar uma olhada até o fim do video e veja por você mesmo o que estou falando.

O video aqui nos dá uma dimensão nova acerca do que se trata este momento pelo qual estamos passando — ainda mais se incluirmos, além da camada demográfica, as camadas etnográfica, sociográfica e psicográfica desta expansão humana. Com isso, podemos imaginar um pouco melhor o que este tipo de “nomadismo histórico” do homem impactou e impactará o nosso eco-sistema planetário.

Preste atenção! A transformação é geológica, sociológica, econômica, política e apocalíptica.

Não tem jeito! — e já que é assim, precisamos nesse momento ter muito claro aquilo que nos aterra. Aquilo que nos tranquiliza. Aquilo que nos orienta. Aquilo que nos cura. Aquilo que nos alimenta. Aquilo que nos guia. Aquilo que nos faz ser criativos e criadores! Tudo isso em uma dimensão coletiva e individual ao mesmo tempo. Difícil, né? Mas urgente! Do meu lado, afirmo com a convicção de uma vida (ou pelo menos uma porção bem intensa dela):

Aquilo que mais precisamos para orientar positivamente esta grande mudança planetária coletiva e individualmente é o Silêncio.

Silêncio. Isso mesmo! Esta é a tese. A tese de que apenas o espaço vazio pode receber os padrões inteiramente e autenticamente novos que precisamos para resolver a complexidade do mundo atual cheio de problemas inomináveis e passar co-criar um mundo novo — que para aqueles que conseguem enxergar já está nascendo.

Qualquer outra forma de buscar e inspirar o novo e a inovação tende a se impregnar de material cultural antigo, nos mantendo presos em ciclos de repetições dos mesmos problemas e das mesmas questões. Para um novo mundo, precisamos soluções autenticamente novas e estas precisam estar despidas de paradigmas passados. Repito, não conheço instrumento mais eficiente para isso do que o Silêncio — a.k.a. Meditação.

 

Ser e não-Ser — eis a resposta.

Meditar é como mergulhar num cofre cheio. Cada vez que você vai lá, pega umas moedas. 
— David Lynch

Assim como já relatei aqui em minha própria descoberta deste poderoso silêncio interior e também já apresentei uma técnica cotidiana que pode lhe ajudar a ter contato com ele, pretendo, aqui ajudá-lo a entrar em sintonia, pelo menos um pouco, com aquilo que chamo de Silêncio Criativo. Um Silêncio que, ao invés de entediá-lo, lhe carregará de energia criativa e construtiva para ser lançada ao mundo.

O Silêncio Criativo nada mais é do que o reconhecimento do Silêncio como gerador, como arcabouço de idéias formidáveis prontas para nos ajudar em todas as dimensões de nossa vida. Não há nada mais eficiente do que o Silêncio para o despertar da criatividade autêntica e para que o verdadeiramente novo possa emergir. Muitos criativos de grande calibre tem uma percepção parecida. John Cage, por exemplo, sempre teve um fascínio direto pelo silêncio, mesmo sendo o centro de sua produção a música e o universo sonoro — em verdade o silêncio é o elemento perfeito para se construir uma ponte até o som — essa era sua percepção.

 

David Lynch também tem sua fascinação e cultivo cotidiano deste espaço de Silêncio Criativo. Ele aborda em seu livro “Em águas profundas” (Catching the big fish) uma importante metáfora nessa direção:

Se você quer pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quer um peixe grande, terá que entrar em águas profundas.
 

O que Lynch quer dizer com isso? Que a meditação, ou o contato sistemático com o silêncio interior, é uma ferramenta poderosa para entrarmos em contato com dimensões de nosso ser que são inacessíveis de outros modos. O livro de Lynch, que é uma apologia à meditação, é um pequeno e belo tratado inspiracional sobre porque e como “treinar” sua mente para atingir esta criatividade autêntica através do contato com o silêncio. Ele mesmo treina esse contato por, pelo menos, 20 minutos ao dia. Lynch tem feito isso sem perder um dia sequer há mais de 40 anos! 

 

Além desta prática pessoal, o diretor tornou-se um dos principais ativistas da meditação no ocidente e defende a prática da Meditação Transcendental como forma de sucesso pessoal e transformação planetária através de seus testemunhos pessoais e de sua David Lynch Foundation.

 

O Silêncio Criador e o Silêncio Criativo.

Trata-se de um poder criativo profundo que o vazio impõe sobre nós. Ser e não-ser — estas são as duas faces de uma mesma moeda. Acredito que é esta liberdade imposta pelo Silêncio que nos orientará à nova fase de desenvolvimento humano, individual e coletivo e de uma Cultura Planetária mais integrada. 

Mesmo a busca por uma estética do silêncio ou da ausência positiva— mostra o atual interesse de nossa cultura contemporânea pela dimensão da não-existência, do silêncio e do vazio. Não o vazio vazio, mas o vazio cheio. O vazio pleno da perspectiva budista — a mente de clara luz — cheio de sentido e poder criador. O vazio que inspira espaços novos cheios de riquezas advindas de uma nova linguagem e entendimento. O entendimento que transcende a separação entre entre ação e não-ação, entre o tudo e o nada, entre a vida e a morte. De novo, são faces de uma mesma moeda.

Este é um princípio culturalmente fresh mas historicamente antigo — nos remetendo a conhecimentos e culturas ancestrais como a linhagem filosófico-espiritual do Advaita Vedanta da Índia antiga que prega a não-dualidade e a unidade. Este princípio remete também a conceitos de novas teorias que explicam a realidade num contexto de interdependência entre tudo como sugere a Teoria Integral de Ken Wilber, a visão de Unidade Sagrada de Gregory Bateson ou ainda teorias que sondam a possibilidade lançada por Eistein do Campo Unificado como a Teoria da Supercordas.

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A revolução começa dentro de nós, no nosso espaço interior íntimo e se expande, gradual e continuamente, para o mundo exterior. Esta é a revolução que, como raça, viemos aguardando há séculos e nós estamos próximos a protagonizá-la. Uma revolução silenciosa, a Revolução do Silêncio.

 

 

Tao Te King — Canto XXXVII

Tao Te King — Canto XXXVII

 

 
O Tao é um eterno não-fazer,
e mesmo assim nada fica sem ser feito
Se os príncipes e os reis do mundo souberem como preservá-lo,
todas as coisas se farão por si mesmas
Se elas se fizerem por si mesmas, provocando a cobiça
eu as desterro pela simplicidade que não tem nome
A simplicidade que não tem nome gera a ausência de desejos
A ausência de desejos cria a serenidade
e o mundo se endireita por si mesmo
 

 
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